segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Observação na Escola

A palavra observar provém do latim observare, e quer dizer olhar ou examinar com minúcia e atenção. A acção de observar implica considerar atentamente os factos para os conhecer bem.

Alarcão e Tavares (1987:103) afirmam que no contexto escolar, a observação é o conjunto de actividades destinadas a obter dados e informações sobre o que se passa no processo de ensino/aprendizagem com a finalidade de, mais tarde, proceder a uma análise do processo numa ou noutra das variáveis em foco. Quer isto dizer que o objecto da observação pode recair num ou noutro aspecto: no aluno, no ambiente físico da sala de aula, no ambiente sócio-relacional, na utilização de materiais de ensino, na utilização do espaço ou do tempo, nos conteúdos, nos métodos, nas características dos sujeitos, etc.

Desta definição posso extrair duas ideias principais: (i) a observação é um procedimento e uma técnica de recolha de dados e (ii) os dados recolhidos devem ser analisados. Associado a estas ideias, o observador (seja ele quem for supervisor ou praticante) deve ter a consciência de que a observação escolar sendo uma actividade de pesquisa, rege-se por princípios da planificação, que compreende, segundo Gil (1996:21), os seguintes elementos: processo, eficiência, prazos e metas.

A observação pode ser considerada em duas dimensões: (i) como processo mental e (ii) como técnica organizada. Como processo mental, observar é acto de apreender coisas e acontecimentos, comportamentos e atributos pessoais e concretas inter-relações. Neste sentido ultrapassa o simples acto de ver e ouvir. É seguir o curso dos fenómenos, seleccionando aquilo que é mais importante e significativo, a partir das intenções específicas do pesquisador. Como técnica organizada, observar é um meio de medir por descrição, classificação e ordenação. Transcende a simples constatação dos dados, porquanto envolve a complementação dos sentidos por meios técnicos. Permite a apreensão directa dos fenómenos.

A observação como técnica requer:

- Especificação: os fenómenos seleccionados devem ser de possíveis mensurar, no caso de classificação e ordenação.

- Objectividade: os fenómenos devem ser descritos tal como ocorrem.
- Sistematização: a situação e os factores especiais devem ser controlados através de um planeamento cuidadoso. Requer processos de obter, seleccionar e analisar os dados.
- Validade: os resultados obtidos devem estar proporcionalmente adequados aos objectivos. A validade depende em grande parte da definição e selecção de actividades que contenham os elementos essenciais.
- Treinamento: o observador deve estar preparado para a tarefa.

Minon apud (Rudio, 1999:39) sustenta que, no sentido mais amplo, observar não se trata apenas de ver, mas sim de examinar. Não se trata somente de entender mas de auscultar. Trata-se também de ler documentos (livros, jornais, impressos diversos) na medida em que estes não somente nos informam dos resultados das observações e pesquisas feitas por outros mas traduzem também a reacção dos seus autores.

Rudio (ibidem), por sua vez, acrescenta que “observar é aplicar os sentidos a fim de obter uma determinada informação sobre algum aspecto da realidade”.

Seja qual for o conceito com que o observador estiver a operar, é fundamental recordar que a observação para ser considerada um instrumento metodológico requer uma planificação, registo adequado e deve ser submetida a controles de precisão, (Moroz & Granfaldoni, 2002:6).


Aspectos a ter em conta na observação:

(i)- Qualidades pessoais do pesquisador

De acordo com Gil (1996:20), o sucesso de uma pesquisa depende de certas qualidades intelectuais e sociais do pesquisador, dentre as quais se destacam:
- Conhecimento do assunto a ser pesquisado
- Curiosidade
- Criatividade
- Integridade intelectual
- Atitude autocorrectiva
- Sensibilidade social
- Imaginação disciplinada
- Perseverança e paciência
- Confiança na experiência

Ludke & André (2003), debruçando-se sobre os estudos etnográficos de Hall (1978), referem que um observador deve reunir, essencialmente, as seguintes características: a capacidade de tolerar ambiguidades; ser capaz de trabalhar sob sua própria responsabilidade; deve inspirar confiança; deve ser pessoalmente comprometida, autodisciplinada, sensível a si mesma e aos outros; madura e consistente; e deve ser capaz de guardar informações confidenciais.

Para além dessas qualidades pessoais, as autoras citadas consideram ser importante que o observador se preocupe “em se fazer aceito”, mostrando o seu envolvimento e comprometimento com as actividades e evitando tomar partido, ou seja, evitando ser identificado com um grupo particular.

Ludke & André (ibidem:17), concluem que

“Além dessas qualidades pessoais e das decisões que deve tomar quanto à forma e à situação de coleta dados, o observador se defronta com uma difícil tarefa, que é a de selecionar e reduzir a realidade sistematicamente. Essa tarefa exigirá certamente que ele possua um arcaboiço teórico a partir do qual seja capaz de reduzir o fenómeno em seus aspectos mais relevantes e que conheça as várias possibilidades metodológicas para abordar a realidade a fim de melhor compreendê-la e interpretá-la.”

A observação sistemática, pelas características da intensidade, planeamento e ordenação, atinge padrões científicos e objectivos. Para a sua concretização o observador deve possuir as seguintes qualidades:

- Capacidade de percepção: é a capacidade de apreender os fenómenos. O acto de percepção apresenta aspectos objectivos e subjectivos. Os subjectivos são dinamizados pela experiência anterior, pelas emoções e sentimentos, pelas motivações, sistema de acção e pensamento. O observador deve ter a capacidade de controlar tanto os aspectos objectivos, como os subjectivos.
- Capacidade de atenção: é a atenção que dirige, assegura e mantém a percepção. Permite que o observador se oriente de acordo com o foco conceptual.
- Capacidade de memorização: esta capacidade envolve fixação, reprodução, reconhecimento e evocação de algo conhecido. O observador desenvolvê-la-á até certo grau, porquanto há fenómenos que emergem em determinada situação de observação e que ela não pode registar no momento.
- Capacidade de analisar: é a capacidade de segmentar o todo observado em partes significativas, organizando-as de forma a que as relações entre as partes existentes sejam adequadamente visualizadas.
- Capacidade de generalizar: é a capacidade de chegar a afirmações categóricas, inferidas a partir da análise e interpretação dos dados.
- Capacidade de comunicação: é a capacidade de equacionar os dados, organizando o relato de forma a que possa ser compreendido e utilizado por outras pessoas.

(ii)- Recursos humanos, materiais e financeiros

A observação envolve recursos humanos. São eles os fornecedores da informação. Os recursos humanos necessitam de “materiais” (equipamentos, bibliografia e acessórios). Considerando que a observação requer deslocação, bibliografia, produção e/ou aquisição de instrumentos, o observador deve munir-se de recursos financeiros para a pesquisa. Estes três recursos são indispensáveis para uma boa observação.

Formas e meios de observação

Estrela (1994:30) realizou um estudo com vista a simplificar as acepções da palavra observação na área da Pedagogia e Ciências de Educação. Esse trabalho foi realizado pelo facto de o autor ter constatado a existência de mais de setenta vocábulos designando conceitos diferentes, semelhantes ou idênticos. Estrela entendeu que essa diversidade derivava da falta de sistematização, tendo, por isso, apresentado a seguinte proposta de sistematização a que chamou de formas e meios de observação, cujos pontos são os seguintes:

Na perspectiva da Situação ou na Atitude do Observador:
- Observação participante e não participante
- Distanciada e participada
- Intencional (ou orientada) e espontânea


Quanto ao Processo de Observação:
- Observação Sistemática e Ocasional
- Armada (ou instrumental) e desarmada
- Contínua e intermitente
- Directa e indirecta


Quanto aos aspectos e características do Campo de Observação:
- Observação molar e molecular
- Verbal e gestual
- Individual e grupal

Tipos de observação

Rudio (1999) afirma haver dois tipos de observação: a observação vulgar e a observação científica.

A observação vulgar:

É a fonte de obtenção de conhecimentos diários para o homem, sobre si próprio e sobre o mundo que o rodeia (pessoas, coisas, factos). Rudio (1999:41) afirma que pela observação vulgar o homem conhece e aprende sobre o que é útil e necessário para a sua vida, desde coisas muito simples como, por exemplo, qual o ônibus que o leva ao trabalho, qual o ponto em que deve tomar o ônibus e deve saltar, qual o estado de humor do “chefe”, pela fisionomia que apresenta, etc..

A observação vulgar pode ser feita (i) directamente: através das palavras, dos gestos e acções das pessoas, ou (ii) indirectamente: inferindo sobre os pensamentos e os sentimentos, desde que estes se manifestem em forma de palavras, gestos e acções; também se pode observar, indirectamente, as atitudes e as predisposições em relação à determinadas tarefas, pessoas, acontecimentos, etc..

A observação científica:

Segundo Rudio (1999:41), ela complementa, enriquece e aprofunda a observação vulgar, de forma a lhe dar maior validade, fidedignidade e eficácia. A observação científica pode ser de dois tipos: assistemática e sistemática.

A observação assistemática:

De acordo com Rudio (1999:41), a observação assistemática, também conhecida por ocasional, simples, não estruturada é aquela que “se realiza sem planejamento e sem controle anteriormente elaborados, como decorrência de fenómenos que surgem de imprevisto”.

A observação sistemática, designada também, por planificada, estruturada ou controlada é a que se realiza em condições controladas para se responder a propósitos, que foram anteriormente definidos. Requer planificação e necessita de operações específicas para o seu desenvolvimento.

A observação sistemática sustenta-se a partir dos seguintes elementos:

- Por que observar (motivações)?
- Para que observar (objectivos)?
- Como observar (instrumentos)?
- O que observar (o campo de observação)?
- Quem observa (sujeito)?

Em relação à pergunta por que observar, o pressuposto é de que ninguém observa sem motivos. Pretende-se, como resposta, que se diga aquilo que leva o sujeito a olhar e examinar com precisão. Por exemplo, se um sujeito intenta em assistir a uma aula deverá dizer o que o move a fazê-lo. Com base nessa pergunta o observador explicita os motivos da observação.

A questão para que observar remete o observador a pensar na definição dos objectivos. Esta pergunta equivale a qual é a finalidade da observação ou o que se pretende alcançar com a observação? O objectivo de uma observação, na escola, pode ser, por exemplo, conhecer fisicamente a escola e suas infra-estruturas; conhecer a organização e funcionamento do sector pedagógico e administrativo da escola; conhecer a composição dos grupos de disciplina, em particular o de Português; acompanhar a aplicação das normas que regem o funcionamento da escola como instituição de ensino.

Haverá, certamente, muitos e diferentes objectivos para a realização de uma observação na escola. É fundamental que o observador tenha sempre em mente a estrutura física e organizacional de uma escola para a formulação dos objectivos. Tendo essa estrutura básica de uma escola, os objectivos da observação serão fundamentalmente os seguintes:

- Conhecer fisicamente a escola e suas infra-estruturas;
- Conhecer a organização e funcionamento do sector pedagógico e administrativo da escola;
- Conhecer a composição dos grupos de disciplina;
- Acompanhar a aplicação das normas que regem o funcionamento da escola como instituição de ensino.

Para Estrela (1994:26), a observação visa contribuir para a afirmação de uma atitude experimental. Este autor afirma que “só através de uma prática pedagógica de carácter científica se tornará possível ultrapassar o empirismo e fazer inflectir definitivamente a atitude tradicional que reduz a pedagogia a uma arte”.

De acordo com o autor citado, o investigador precisa saber observar e problematizar, ou seja, interrogar a realidade e construir hipóteses explicativas e depois intervir e avaliar.

No que diz respeito a pergunta como observar, a resposta remete-nos à abordagem sobre a selecção de instrumentos de observação. Esses instrumentos podem ser: inquéritos, diários, entrevistas, questionários.

Sobre a questão o que observar, a resposta tem a ver com a delimitação do campo de observação. Se pensarmos, por exemplo, numa escola, o campo de observação é a escola. Esse campo, pode ser restringido em função dos objectivos previamente definidos. Assim, poderá o observador seleccionar a sala de aulas, o sector pedagógico, o sector administrativo, etc.

A pergunta quem observa tem como resposta o sujeito. Em situação das Práticas Pedagógicas, o sujeito pode ser, por exemplo, o supervisor, o praticante, o tutor. O sujeito da observação pode desempenhar o papel de um planificador e, simultaneamente, de um executor da observação, o que é aconselhável, ou ainda, assumir o papel de um mero executor de um programa de observação.


Métodos de recolha de dados: observação, entrevista e análise documental:

Há vários métodos de recolha de dados. Para efeitos deste trabalho, destacam-se a observação, a entrevista e a análise documental. Neste trabalho destaco o método de observação.

Na observação, o pesquisador inicia a busca de dados preocupado com a apreensão da totalidade do fenómeno, mas sempre atento ao foco de seu interesse. Por isso, a observação torna-se um processo selectivo, que possibilita uma análise mais detalhada do problema de investigação.

De acordo com Bogdan e Biklen (1982), apud Ludke e André (2003), o conteúdo da observação deve compreender uma parte descritiva e outra mais reflexiva. A parte descritiva deve ser um registo detalhado do que ocorre no campo e incidir sobre:

(i) “Descrição dos sujeitos”. Sua aparência física, seu modo de vestir, de falar e de agir.
(ii) “Reconstrução de diálogos”. As palavras, os gestos, os depoimentos, as observações feitas entre os sujeitos ou entre estes e o pesquisador devem ser registados. É preciso usar as palavras dos observados. As citações são bastante importantes para analisar, interpretar e apresentar os dados.
(iii) “Descrição de locais”. O ambiente onde é feita a observação deve ser descrito. O uso de desenhos ilustrando a disposição dos móveis, o espaço físico, a apresentação visual do quadro de giz, dos cartazes, dos materiais de classe podem também ser elementos importantes a ser registados.
(iv) “Descrição de eventos especiais”. As anotações devem incluir o que ocorreu, quem estava envolvido e como se deu esse envolvimento.
(v) “Descrição das actividades”. Devem ser descritas as actividades gerais e os comportamentos das pessoas observadas, sem deixar de registar a sequência em que ambos ocorrem.
(vi) “Os comportamentos do observador”. Sendo o principal instrumento da pesquisa, é importante que o observador inclua nas suas anotações as suas atitudes, acções e conversas com os participantes durante o estudo.

Ainda de acordo com Bogdan e Biklen (1982), apud Ludke e André (2003), a componente reflexiva das anotações inclui as observações pessoais do pesquisador, feitas durante a fase de colecta, nomeadamente, suas especulações, sentimentos, problemas, ideias, impressões, pré-concepções, dúvidas, incertezas, surpresas e decepções. Essas reflexões podem ser, por exemplo, do tipo:

(i) “Reflexões analíticas”. Referem-se ao que está sendo “aprendido” no estudo, isto é, temas que estão emergindo, associações e relações entre partes, novas ideias surgidas.
(ii) “Reflexões metodológicas”. Nestas estão envolvidos os procedimentos e estratégias metodológicas utilizados, as decisões sobre o delineamento (design) do estudo, os problemas encontrados na obtenção dos dados e a forma de resolvê-los.
(iii) “Dilemas éticos e conflitos”. Aqui entram as questões surgidas no relacionamento com os informante, quando podem surgir conflitos entre a responsabilidade profissional do pesquisador e o compromisso com os sujeitos.
(iv) “Mudanças na perspectiva do observador”. É importante que sejam anotadas as expectativas, opiniões, preconceitos e conjecturas do observador e sua evolução durante o estudo.
(v) “Esclarecimentos necessários”. As anotações devem também conter pontos a serem esclarecidos, aspectos que parecem confusos, relações, relações a serem explicitadas, elementos que necessitam de maior exploração.

Estas anotações (descritivas e reflexivas) devem ser encaradas como sugestões para uma observação consciente e visam facilitar a organização de dados de estudo; esta listagem não tem a pretensão de ser uma receita.


BIBLIOGRAFIA

ALARCÃO, I. e TAVARES, J.. Supervisão da Prática Pedagógica, uma perspectiva
de desenvolvimento e aprendizagem. Coimbra: Livraria Almedina, 1987

ESTRELA, A.. Teoria e Prática de Observação de Classes, Uma estratégia de Formação de Professores. 4ª edição. Porto, Porto Editora, 1994.

GIL, António Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 3ª edição. São Paulo, Editora Atlas, 1996.

LUDKE, M. & ANDRÉ, M.E.D.A. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. 6ª edição. São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária (EPU), 2003.

MOROZ, M. & GRANFALDONI, M.. O Processo de pesquisa: iniciação. Brasília, Editora Plano, 2002.

RUDIO, F., V.. Introdução ao Projeto de Pesquisa Científica. 24ª edição. Petrópolis, Vozes, 1999.

2 comentários:

  1. Obrigado pelas ideias de sua inteligencia me ajudou muito.
    Gilberto Luís Signor
    Curso na Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves RS.

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  2. estou muinto grato por comportilhar o seu conhecinento,contribui muinto para a nossa aprendizagem

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